Energia demais pode gerar apagão? Entenda o risco

Especialistas alertam que o excesso de energia limpa no Brasil pode causar apagões por sobrecarga no sistema elétrico.

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Parece contraditório falar em apagão causado por excesso de energia, ainda mais quando o mundo busca ampliar o uso de fontes renováveis. Mas essa é uma preocupação real que começa a ganhar força no Brasil. O país tem uma das matrizes mais limpas do planeta, com cerca de 90% da energia proveniente de fontes renováveis, como hidrelétricas, eólicas e solares. Porém, esse avanço trouxe um novo desafio: o risco de sobrecarga no sistema elétrico nacional.

O sistema elétrico brasileiro foi planejado há mais de meio século, entre as décadas de 1960 e 1970, quando as hidrelétricas dominavam a geração de energia. Grandes usinas, como Itaipu e Tucuruí, foram conectadas a extensas redes de transmissão, responsáveis por levar eletricidade a todo o país. O modelo sempre se baseou em um princípio básico: gerar energia apenas na medida em que há demanda para o consumo. Isso mantém o equilíbrio entre o que é produzido e o que é utilizado.

Com a chegada das novas tecnologias, principalmente a partir dos anos 2000, a matriz elétrica passou a incluir energia eólica e energia solar. Esta última se expandiu de duas formas: a geração centralizada, feita por grandes usinas, e a distribuída, conhecida como energia de telhado, com painéis instalados em residências e empresas. Esse crescimento, embora positivo, trouxe uma questão delicada. Em momentos de baixa demanda, como feriados ensolarados, o sistema pode receber mais energia do que o necessário, o que gera instabilidade.

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O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) monitora em tempo real o equilíbrio entre geração e consumo. Quando há sobra de energia, o operador é obrigado a realizar cortes de geração — conhecidos como curtailment — para evitar que o sistema entre em colapso. Além disso, falhas em equipamentos ou sobrecargas na rede de distribuição também exigem ajustes imediatos.

A expansão rápida da chamada micro e minigeração distribuída, incentivada pela lei aprovada em 2022, contribui para esse cenário. Segundo projeções, até 2029, cerca de 25% da capacidade instalada do país virá dessa modalidade. O problema é que essa energia é injetada diretamente na rede, sem controle direto do ONS, o que pode gerar desequilíbrios locais.

Entre as soluções discutidas, está o investimento em baterias de grande porte, capazes de armazenar energia excedente para uso posterior. Outras medidas em análise incluem tarifas dinâmicas, que incentivam o consumo em horários de maior geração, além da ampliação do uso de hidrelétricas reversíveis, que ajudam a regular o fluxo energético.

O fato é que, mesmo com o avanço da tecnologia e o crescimento das fontes renováveis, o equilíbrio energético continua sendo o maior desafio. Sem ajustes estruturais e políticas adequadas, o país pode enfrentar o paradoxo de sofrer apagões em meio a uma abundância de energia limpa.

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