Crise na Venezuela: Trump prepara ação militar?
A América Latina se encontra sob a sombra de um possível conflito bélico, impulsionado por um movimento naval dos Estados Unidos no Mar do Caribe. Uma estratégia que a Casa Branca começou a construir há cerca de sete anos contra o governo de Nicolás Maduro, na Venezuela, reacende tensões regionais.
Durante seu mandato, o governo Trump estabeleceu argumentos políticos, legais e de segurança para justificar uma ação militar contra o regime venezuelano. A derrota eleitoral em 2020 interrompeu esse processo, mas um eventual retorno ao poder poderia reativar essa animosidade, com consequências imprevisíveis.
Ao contrário do episódio fracassado da “presidência interina” de Juan Guaidó em 2019, Washington agora enquadra uma possível operação no combate ao narcotráfico, focando no fentanil e na cocaína, e ao terrorismo. O objetivo declarado é neutralizar o Trem de Aragua e o Cartel de los Soles, organizações que, segundo os EUA, são dirigidas pelo governo venezuelano e representam uma ameaça à segurança nacional.
Essa guinada retoma uma linha ideológica de 2015, quando o governo Obama classificou a Venezuela como uma “ameaça incomum e extraordinária”. Em setembro de 2025, o Parlamento Europeu declarou o Cartel de los Soles como organização terrorista, aumentando a pressão internacional.
A escala do desdobramento militar estadunidense é notável: navios de assalto anfíbio, contratorpedeiros, um cruzador de mísseis guiados, submarinos nucleares e mais de 8 mil soldados operam na área. Adiciona-se a isso aviões de vigilância e caças F-35, além de treinamentos em Porto Rico. Um poder de fogo que sugere objetivos mais amplos que o “combate às drogas”.
Embora Washington insista em uma patrulha antinarcóticos, as forças mobilizadas não têm relação com o trabalho da Guarda Costeira. Recentemente, uma operação resultou na destruição de uma lancha com 11 tripulantes, sem advertências ou controle judicial, assemelhando-se a uma execução sumária.
O governo Trump não apresentou justificativas legais nem provas de que se tratava de narcotraficantes. Ataques devem ser lidos como uma mensagem política e militar. Até meados de outubro, cinco embarcações foram explodidas, com um saldo de 27 mortos, ainda sem identificação ou explicações formais.
Há motivações políticas internas em jogo. Eleições de meio de mandato se aproximam, e ações brutais contra imigrantes latinos geraram mal-estar. Uma operação militar “bem-sucedida” na Venezuela poderia revitalizar sua imagem. Trump poderia se apresentar como o líder que promoveu uma mudança política em Caracas, com reflexos em Cuba e Nicarágua, atraindo o eleitorado cubano-americano e nicaraguense mais anticomunista.
Além disso, para o movimento “Make America Great Again”, imigrantes seriam responsáveis pelos problemas sociais. Uma ação militar reforçaria a mensagem de redução do fluxo migratório da Venezuela, Cuba e Nicarágua para os EUA.
Durante a presidência de Joe Biden, a América Latina foi relegada a um segundo plano. Trump fez da recuperação da influência estadunidense na região um de seus slogans. Venezuela, Cuba e Nicarágua são vistas como plataformas para a presença de China, Rússia e Irã na região. Neutralizar essa “influência maligna” seria um objetivo central.
Por fim, há uma dimensão simbólica e pessoal. Para Trump, enfraquecer o regime cubano, intimidar o governo da Colômbia e ameaçar a Nicarágua poderia gerar dividendos políticos imediatos.
Uma invasão em grande escala da Venezuela parece improvável. A experiência do Iraque em 2003 serve como parâmetro: mais de 4.500 soldados americanos mortos, cerca de dois trilhões de dólares gastos e 200 mil civis mortos. Especialistas militares estimam que uma invasão à Venezuela exigiria 150 mil soldados.
Analistas militares não descartam operações mais limitadas, como ataques aéreos seletivos ou sabotagens. A intenção desta fase seria a desarticulação violenta de redes de narcotráfico e a captura dos líderes dos cartéis, não a ocupação do país.
A explosão da lancha venezuelana em setembro foi um fato grave, uma provocação que equivalia a um casus belli. No entanto, a reação do regime não foi de escalar a situação. As autoridades venezuelanas alegaram que a explosão era uma montagem com inteligência artificial.
Em paralelo, o regime tentou projetar uma imagem de força interna, com uma “arma secreta”: a milícia. Segundo porta-vozes, essa força contaria com 12,7 milhões de reservistas.
Diante desse cenário, o futuro imediato da Venezuela dependerá da disposição real de Washington em ir além das intimidações, da capacidade do regime de Maduro de sustentar sua retórica e da pressão da sociedade venezuelana e internacional por uma solução baseada em direitos e garantias políticas. O país se encontra numa encruzilhada.



