Rio sob fogo: operação policial reacende debate eleitoral?
O massacre ocorrido durante uma megaoperação policial no Rio de Janeiro levanta questões sobre uma possível manobra política da direita. A ação, que resultou em um número alarmante de mortes, surge em um momento em que a pauta política parecia se concentrar em outros temas, como as relações entre Brasil e Estados Unidos e seus desdobramentos econômicos e geopolíticos.
Nos meses anteriores, o governo federal havia conseguido recuperar um discurso favorável, defendendo os interesses da população mais vulnerável e resgatando bandeiras como a soberania nacional e a luta contra a corrupção. A reaproximação com os Estados Unidos sob a administração Trump, inclusive, deu ao governo uma nova posição no cenário internacional.
Esse cenário de recuperação política e popularidade do governo parece ter impulsionado a direita a recorrer a uma estratégia já conhecida: a pauta da segurança pública, com o uso ostensivo da força. A operação no Rio de Janeiro, com suas consequências trágicas, pode ser vista como uma tentativa de reacender o debate sobre o tema, capitalizando o sentimento de insegurança da população.
Desde o início, o governo do estado acusou o governo federal de omissão no combate ao crime organizado, buscando transferir a responsabilidade pela escalada da violência. A operação, que ignorou recomendações sobre o uso de armamento militar em áreas densamente povoadas, resultou em um número de mortes sem precedentes, além de deixar milhões de pessoas em pânico e com sua rotina afetada.
Apesar das críticas e da comoção social, a direita aposta no discurso do “pulso firme” como forma de mobilizar seu eleitorado, especialmente em um contexto de ausência de políticas de segurança eficazes. Estratégias semelhantes já foram utilizadas em outras ocasiões, como nas operações do Jacarezinho e da Vila Cruzeiro, com resultados igualmente desastrosos.
Pesquisas indicam que a segurança pública será uma das principais preocupações dos eleitores nas próximas eleições. Consciente disso, o governo do estado demonstra claramente a intenção de explorar o tema, mesmo que isso signifique o aumento da violência e o sofrimento da população.
Entretanto, o excesso de violência na operação pode ter gerado um efeito contrário, despertando um sentimento de comoção e questionamento sobre a forma como o problema da criminalidade tem sido abordado. Em contrapartida, o governo federal tem buscado apresentar uma alternativa, com ações baseadas em inteligência e investigação financeira, como a operação Carbono Oculto, que desmantelou um esquema bilionário de lavagem de dinheiro sem o uso de violência.
A sociedade parece ter percebido a diferença, e a operação Carbono Oculto teve repercussão positiva, abrindo espaço para um novo debate sobre a segurança pública. O governo federal também apresentou uma proposta de emenda à Constituição com o objetivo de fortalecer a integração das forças federais, estaduais e municipais no combate ao crime.
Diante desse cenário, a tragédia no Rio de Janeiro pode acelerar a aprovação da PEC da Segurança, em resposta à comoção pública, e abrir um debate decisivo sobre os rumos da segurança pública no país. A discussão tende a se polarizar entre duas abordagens antagônicas: a aposta na inteligência e na integração policial, e a versão 2.0 da “Guerra às Drogas”, com a importação de discursos e estratégias que já se mostraram ineficazes e danosas em outros países.



