O medo como arma: ascensão da política do pânico

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O medo emergiu como um poderoso ativo político, especialmente para a extrema direita, servindo como base para a distinção entre “amigo” e “inimigo”, conceito central na política. Longe de ser um mero efeito colateral de crises, o medo está sendo utilizado como um instrumento deliberado de governo. Em áreas onde o Estado se retira das garantias sociais, o medo preenche esse vácuo, substituindo direitos por inimigos, debates por emoções e a insegurança cotidiana por poder.

Com a expansão das campanhas digitais, essa lógica atinge um novo patamar. A retórica do medo não busca convencer através do debate racional, mas sim recrutar seguidores para um lado específico. Ao estabelecer uma divisão entre o “cidadão de bem” e a “ameaça”, a política se transforma em um campo de batalha existencial, onde a definição do inimigo e a promessa de sua eliminação conferem poder a quem o faz.

O Brasil se destaca como um exemplo dessa dinâmica. A retórica da “guerra ao crime”, historicamente impulsionada pelo sensacionalismo midiático, ressurge como uma estratégia eleitoral eficaz. Notícias sobre violência são usadas para validar a repressão como única solução, levando eleitores a apoiar ações estatais violentas na crença de que estão se protegendo.

A extrema direita demonstra compreender o caráter performático do medo, onde a veracidade dos fatos se torna secundária. Notícias distorcidas, vídeos descontextualizados e o pânico moral são utilizados não para informar, mas para provocar reações emocionais. Cada reação, cada onda de pânico, solidifica o poder que se nutre da ansiedade coletiva.

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Esse sistema opera através de eixos complementares: o midiático, que alimenta a sensação de insegurança através de notícias e redes sociais; o econômico, com a expansão do mercado de segurança privada e armamentos; e o político, que justifica cortes sociais em prol do aumento do orçamento policial, levando a sociedade a aceitar a violência como solução.

O medo também ganha uma dimensão moral, onde o inimigo fabricado se estende a defensores de direitos humanos, acadêmicos críticos e opositores de políticas de encarceramento em massa. A política social é substituída pela guerra de costumes, a fé é usada como instrumento de raiva e a gestão estatal se transforma em uma cruzada. O medo, portanto, une a busca por punição à negligência social.

Há uma clara estratégia pedagógica em curso, onde o cidadão é incentivado a desconfiar do próximo, a normalizar a letalidade policial e a se ressentir dos mais pobres em nome da ordem. Essa educação emocional molda uma cultura política punitiva, onde quem domina a narrativa do medo controla o imaginário coletivo, definindo o que é ameaça, quem deve ser contido e quem merece proteção.

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Na esfera eleitoral, o medo se torna o próprio projeto. Não é preciso oferecer um futuro promissor, mas sim proteção contra um presente caótico. O político se apresenta como um escudo, e não como um administrador. O voto, então, deixa de ser uma escolha política para se tornar um ato de autopreservação, revelando o sucesso da política como um reflexo condicionado.

Essa exploração calculada do medo conecta o Brasil a um cenário internacional, onde líderes como Trump, Meloni, Orbán e Milei utilizam o pânico social como principal forma de comunicação, adaptando-o a contextos locais.

Na América Latina, essa estratégia se manifesta na figura do “narcoterrorista”, um inimigo que combina o medo do crime urbano com a ameaça do terrorismo, justificando uma resposta de guerra. O medo, seja do imigrante, do “subversivo” ou do criminoso, se torna a linguagem comum da nova direita global, transformando a incerteza em obediência.

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