Capitalismo e ciência: a quantificação da sociedade moderna

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Cálculo, capital e ciência revelam conexões intrínsecas na busca pela quantificação, um processo que moldou profundamente a sociedade moderna e sua compreensão. Uma análise histórica revela como o capitalismo e a ciência moderna se tornaram forças quantificadoras, impulsionadas pelo uso do dinheiro como entidade essencialmente quantitativa.

A quantificação, mensuração e matematização são conceitos-chave nessa análise. Quantificação é o processo cognitivo de ver a realidade em termos de quantidade. A mensuração, por sua vez, é a interação prática com a realidade que define aspectos da visão quantitativa. A matematização engloba ambos os processos.

O estudo divide-se em momentos históricos cruciais, desde o século XIV até o século XXI, demonstrando a evolução da quantificação:

Século XIV: A quantificação do conhecimento pelos escolásticos, marcando o início de um movimento que buscava entender o mundo em termos quantitativos.

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Séculos XVI-XVII: A invenção de métodos de mensuração por Galileu, possibilitando a matematização do conhecimento da natureza.

Século XVIII: O utilitarismo, liderado por Bentham, emerge como uma força quantificadora, influenciando o pensamento econômico e social.

Século XIX: A matematização da ciência atinge seu ápice, simbolizada pelo lema de Lord Kelvin, que enfatiza a importância da medição para o conhecimento.

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Século XX: A metaciência é matematizada com a cientometria de Solla Price, aplicando métodos quantitativos ao estudo da própria ciência.

Séculos XX-XXI: O neoliberalismo intensifica a quantificação, transformando tudo em mercadoria e radicalizando os princípios do capitalismo.

A análise detalha como a monetização crescente da sociedade europeia no século XIV influenciou o pensamento escolástico e impulsionou a quantificação. Estudantes e mestres universitários vivenciavam os efeitos da monetização diariamente, o que despertou o interesse dos escolásticos pela vida econômica e pelo dinheiro.

O dinheiro passa a ser visto como medida de todas as coisas, ampliando a categoria de objetos passíveis de troca. Essa visão permite a quantificação de qualidades, rompendo com a visão aristotélica das categorias.

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Figuras como Alberto Magno, Tomás de Aquino e Nicole Oresme contribuíram para o desenvolvimento dessas ideias, com destaque para o conceito de “latitude das qualidades” relacionado à ideia de preço justo.

Apesar dos avanços na quantificação, a medição propriamente dita estava ausente. Os escolásticos quantificavam, mas não mediam. Galileu, séculos depois, inova com a criação de instrumentos de medição, como a balança hidrostática e o compasso geométrico-militar, marcando a transição para a ciência moderna.

A matemática, para Galileu, era a linguagem do universo, composta por triângulos, círculos e outras figuras geométricas. Sua abordagem geométrica reflete as limitações da matemática disponível na época.

O utilitarismo de Bentham, com sua redução, quantificação e maximização, representa outro avanço na quantificação, buscando medir a felicidade e a dor. Apesar das críticas de Marx, Bentham influenciou a Economia Política e defendeu políticas progressistas.

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Já no século XIX, Lord Kelvin sintetiza o triunfo da matematização, ressaltando a importância da medição para o avanço do conhecimento científico.

A cientometria de Solla Price surge no século XX, aplicando métodos quantitativos ao estudo da ciência. Price identificou o crescimento exponencial da ciência e suas implicações, como a necessidade de administrar o ritmo de crescimento.

Por fim, o neoliberalismo radicaliza a quantificação, intensificando a transformação de tudo em mercadoria e remodelando a subjetividade dos indivíduos.

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