Europa aumenta gastos militares em meio a crescentes tensões
A percepção de risco existencial entre líderes europeus, impulsionada pela guerra entre Rússia e Ucrânia, tem atuado como um catalisador para decisões geopolíticas significativas. Essa narrativa de ameaça, mais do que uma análise ponderada, parece alimentar um movimento de rearmamento em toda a Europa.
Apesar do ideal de união dentro da comunidade europeia, o alinhamento de interesses nacionais permanece complexo. O controle da linguagem e a forma como a ameaça russa é apresentada nos discursos políticos e na mídia têm se mostrado úteis para legitimar decisões políticas e financeiras armamentistas. Essas decisões, em tempos de paz, poderiam ser vistas como impopulares, especialmente com o foco voltado para questões sensíveis como imigração e crescimento econômico. A integração de uma estrutura de defesa fragmentada, mesmo com a presença da OTAN, representa um desafio significativo.
Em 2014, durante a Cúpula da OTAN, um acordo não vinculativo estabeleceu a meta de elevar o investimento em defesa para 2% do PIB. O início da guerra entre Rússia e Ucrânia transformou essa aspiração em uma necessidade urgente. A publicação do Strategic Compass for Security and Defence, o plano de defesa da UE, e várias resoluções do Parlamento Europeu, identificaram a Rússia como a principal ameaça à segurança do continente, justificando um aumento na capacidade de defesa do bloco. Em 2024, esperava-se que 16 Estados-Membros da UE superassem a meta de 2%, com especialistas defendendo um objetivo mais ambicioso de 3% do PIB diante da percebida “agressão russa”. Na cúpula da OTAN deste ano, um compromisso de investir 5% do produto interno bruto em defesa até 2035 foi estabelecido.
Os Estados Unidos têm desempenhado um papel crucial em transformar a Rússia em mais um espectro que assombra a Europa. Por mais de oito décadas, a liderança americana na aliança transatlântica permitiu que muitos países europeus mantivessem orçamentos de defesa relativamente modestos. No entanto, as ameaças de que membros da OTAN que não cumprissem seus compromissos de investimento em defesa seriam deixados à própria sorte, trouxe essa possibilidade para o horizonte. O governo americano declarou explicitamente que a Europa deve arcar com uma parcela maior dos custos de sua própria segurança, o que tem sido usado pelas lideranças europeias para convencer os cidadãos da necessidade de investir em armamentos.
A autonomia militar europeia enfrenta desafios relacionados à viabilidade tecnológica e industrial, bem como a uma convergência política menos efetiva do que o esperado diante da ameaça russa. O mercado de defesa europeu é caracterizado por uma fragmentação crônica, contrastando com a organização e as economias de escala do mercado americano. Dentro da União Europeia, sistemas de armas redundantes operam para cumprir as mesmas funções, resultando em ineficiências, custos elevados e falta de interoperabilidade.
A capacidade de produção europeia é insuficiente para sustentar uma guerra de atrito. A dificuldade em cumprir o compromisso de fornecer um milhão de projéteis à Ucrânia até março de 2024, evidencia gargalos na cadeia produtiva. Além disso, a indústria europeia enfrenta dependência de tecnologias e matérias-primas críticas, como a nitrocelulose, em grande parte proveniente da China. No setor aeronáutico, a escolha do F-35 americano como espinha dorsal da força de interceptadores europeus, apesar da existência de modelos locais, aprofunda a dependência tecnológica europeia em relação a Washington.
A percepção da ameaça russa não é uniforme na Europa, com uma dissonância entre as nações do flanco leste da OTAN e os países da Europa Ocidental. Os “frontline states” percebem a ameaça como existencial e imediata, enquanto nações mais distantes historicamente mantiveram uma postura mais focada em ameaças provenientes do sul, como terrorismo e instabilidade. Essa diferença de percepção se traduz em debates sobre a alocação de recursos e o nível de prontidão militar necessário, aumentando os custos de transação e diminuindo a velocidade da mudança.
Rivalidades históricas entre os membros da UE ressurgem em meio à tensão. A Alemanha busca assumir a liderança militar da Europa, concentrando esforços na produção de armamento em larga escala. Essa postura é vista em Paris como um desafio ao protagonismo francês na liderança da defesa europeia, dificultando a integração de sistemas de armas, a redução de custos e a construção de uma política de aquisição comum.
A convergência de uma ameaça externa e a incerteza sobre a garantia de segurança americana geraram um impulso político sem precedentes para o rearmamento europeu. No entanto, o obstáculo mais crítico é o político, com a defesa coletiva enfrentando prioridades nacionais que podem resultar em uma coleção fragmentada de capacidades militares, incapaz de garantir a soberania estratégica do continente.



