Automação e futuro do trabalho: abismo capitalista ou reorganização comunal?
A crescente automação e o avanço tecnológico têm gerado debates acalorados sobre o futuro do trabalho. Em vez de visões utópicas ou distópicas sobre um mundo dominado por robôs e inteligência artificial, é crucial analisar a realidade do capitalismo contemporâneo, marcado pela precarização e estagnação.
O sociólogo, historiador e economista Aaron Benanav, em seu livro “Automação e o Futuro do Trabalho”, convida a uma reflexão sobre a capacidade do capital de levar a sociedade ao limite. Em meio a esse cenário complexo, surge a possibilidade de um futuro diferente, não baseado em soluções tecnocráticas, mas na reorganização do trabalho em comunidade.
Benanav retoma as análises de Robert Brenner sobre o declínio do capitalismo a partir dos anos 1970, quando a sobrecapacidade industrial e a desaceleração dos investimentos impactaram a economia global. As iniciativas estatais para reverter esse quadro, embora tenham tido algum efeito, não conseguiram restaurar os níveis de crescimento do pós-guerra.
O estímulo à economia por meio da valorização de ativos gerou bolhas financeiras, como a pontocom e a imobiliária, demonstrando a fragilidade desse modelo. Nesse contexto de desindustrialização e estagnação, a tecnologia e a automação são frequentemente apontadas como as culpadas pela falta de empregos.
No entanto, Benanav argumenta que a sobrecapacidade na indústria é o principal fator por trás da baixa demanda por trabalho. Além disso, os ganhos de produtividade atuais são modestos em comparação com as décadas seguintes à Segunda Guerra Mundial.
O deslocamento de empregos para o setor de serviços também apresenta desafios, uma vez que a produtividade nesse setor cresce de forma mais lenta, o que pode levar à precarização do trabalho. A competição por demanda intensifica a busca pela redução de preços, inclusive por meio das plataformas digitais.
A estagnação econômica global, resultante da sobrecapacidade na agricultura e na indústria, combinada com o lento crescimento da produtividade nos serviços, leva à disseminação de subempregos, em vez da eliminação generalizada de postos de trabalho.
É importante ressaltar que a situação dos países na economia global é fundamental. Os subempregos e a informalidade já eram uma realidade no Sul global antes mesmo da desindustrialização das últimas décadas. Além disso, as legislações trabalhistas de cada país têm um papel importante na forma como os impactos do declínio capitalista afetam a classe trabalhadora.
Diante da complexidade dos problemas, Benanav defende propostas radicais, como a redução da jornada de trabalho e a socialização dos investimentos, direcionando-os para os interesses públicos. No entanto, isso exigiria uma disputa com o capital e uma organização política extraparlamentar capaz de sustentar esse enfrentamento.
A proposta de uma Renda Básica Universal (RBU) também enfrenta desafios, uma vez que o problema central é a produção, e não a distribuição. Em um cenário de estagnação econômica e crise ambiental, uma RBU alta o suficiente para combater as desigualdades econômicas exigiria uma disputa com o capital pelo controle da economia.
Em vez de uma utopia pós-trabalho, Benanav resgata a proposta comunista de reorganizar a produção e a distribuição, rompendo com o estranhamento da economia capitalista. A ideia é garantir o controle comunal da produção, a organização racional da relação entre seres humanos e natureza, o mínimo emprego de forças e condições de trabalho dignas.
O foco é uma organização comunal que valorize e garanta mais tempo livre a todas as pessoas. Não se trata de tecnofobia, mas da necessidade de transformar as relações de produção para que a tecnologia seja utilizada em um sentido emancipatório.
Ao analisar as misérias do presente, a obra busca apontar saídas revolucionárias, unindo-se a outras contribuições que defendem a superação radical do capitalismo, impulsionada pela classe trabalhadora, a fim de construir economias, tecnologias e formas de vida em comunidade.



