A diplomacia da soja: acordo EUA-China tem impacto limitado no brasil

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Estados Unidos e China anunciaram um acordo no mercado de soja, recebido com reservas quanto ao seu impacto real, especialmente para o Brasil. O anúncio surge após encontro entre os presidentes Donald Trump e Xi Jinping.

O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, revelou que o acordo visa aproximar as exportações de soja dos EUA dos níveis anteriores à guerra comercial de 2025. A China se comprometeu a adquirir 12 milhões de toneladas de soja americana até janeiro de 2026. Adicionalmente, o acordo prevê a compra de pelo menos 25 milhões de toneladas anuais nos três anos subsequentes, alinhado com a média dos últimos cinco anos.

A primeira tranche de 12 milhões de toneladas, com embarque previsto até fevereiro, atende às necessidades das indústrias de esmagamento chinesas até a chegada da nova safra brasileira, segundo especialistas.

Analistas de mercado avaliam que o acordo representa, na melhor das hipóteses, um retorno aos patamares de comércio pré-guerra comercial de 2025, sem representar um avanço significativo. Para alguns, o acordo teve mais impacto na movimentação de algoritmos do que na dinâmica real do mercado.

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O consenso entre os analistas é que o comércio entre EUA e China retorna ao status quo. A China deverá cumprir os volumes mínimos de compra dos Estados Unidos nos últimos meses do ano, mas a partir de janeiro, priorizará a soja brasileira, mais competitiva.

Ainda segundo analistas, o acordo não altera a estratégia de longo prazo da China de reduzir sua dependência dos Estados Unidos. O Brasil pode perder parte do mercado conquistado em 2025, mas a expectativa é que se mantenha uma base de 65% a 70% dos embarques totais de soja em grãos destinados à China.

A notícia do acordo impulsionou positivamente a Bolsa de Chicago, com o contrato para janeiro de 2026 fechando em alta de 1,15%, cotado a US$ 11,07 o bushel. A commodity acumula alta de cerca de 10% no último mês.

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Espera-se que novas valorizações ocorram à medida que as compras chinesas nos Estados Unidos se concretizem. Paralelamente, os prêmios nos portos brasileiros recuaram e voltaram a apresentar valores negativos, após um ano inteiro em território positivo, impulsionado pela forte demanda chinesa. O prêmio para a soja com entrega em março de 2026, por exemplo, atingiu -US$ 0,20 por bushel, revertendo o patamar de US$ 0,22 positivos da semana anterior.

A confirmação dos volumes anunciados pelo governo dos EUA pode sustentar os futuros em Chicago, reduzir as compras chinesas no Brasil e pressionar negativamente os prêmios nos portos brasileiros no curto prazo e para embarques no primeiro semestre de 2026. No entanto, a partir de janeiro, a China deve voltar a se abastecer no Brasil.

O saldo entre Chicago em alta e prêmios em baixa resultou em um impacto praticamente nulo nos preços no Brasil nos últimos dias. A partir de agora, os prêmios nos portos brasileiros devem refletir mais a dinâmica da oferta do que da demanda. Um fator de risco para os preços aos produtores brasileiros é um possível descompasso entre o aumento da produção e a demanda chinesa, que mostra sinais de arrefecimento.

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