Brasil considera trocar tarifas de etanol por redução em taxas de carne e café nos…

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O Brasil avalia a possibilidade de reduzir as tarifas de importação sobre o etanol em troca de tarifas menores nos Estados Unidos sobre a carne bovina e o café. A medida, no entanto, gera preocupação entre produtores locais, que já enfrentam preços em baixa.

Ainda não há data definida para a próxima rodada de negociações comerciais entre os dois países, mas indicativos do que cada lado deseja já começam a surgir, assim como o que o Brasil pode estar disposto a ceder.

Para o governo brasileiro, a prioridade é garantir tarifas menores nos EUA para a carne bovina e o café, ambos sujeitos a uma tarifa de 50% e importantes produtos de exportação para o mercado americano. O etanol, nesse contexto, surge como uma possível moeda de troca nas negociações, o que causa apreensão entre os produtores nacionais.

Atualmente, o etanol dos EUA enfrenta uma tarifa de importação de 18% no Brasil. O governo americano considera essa taxa “injusta” e a tem como alvo em uma investigação comercial iniciada em julho.

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Fontes próximas às negociações indicam que o governo brasileiro parece inclinado a ceder nesse ponto. De acordo com uma das fontes, a dúvida não é mais se o governo cederá, mas sim como e quando isso acontecerá.

Uma isenção tarifária seria uma boa notícia para os produtores americanos, que lidam com o excesso de oferta. Colheitas recordes de milho impulsionaram a produção de etanol a novos patamares, pressionando os preços internos. Cerca de um terço da safra de milho dos EUA é destinada à produção de etanol.

Apesar disso, especialistas alertam que as exportações para o Brasil não resolveriam o problema do excedente americano, estimado em 8 bilhões de litros. O maior volume já exportado pelos EUA para o Brasil foi de 2 bilhões de litros.

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No Brasil, comerciantes e analistas alertam que a medida pode prejudicar empresas que investem na expansão da produção para cumprir metas estabelecidas por uma regulamentação local.

Representantes do setor têm expressado preocupação com a possibilidade de o etanol, parte da política energética brasileira, ser utilizado como moeda de troca nas negociações.

O Brasil já foi o principal mercado de exportação para o etanol dos EUA, mas introduziu tarifas em 2017 após uma inundação de produtos americanos derrubar os preços locais. Desde então, as importações diminuíram, limitadas principalmente a janelas de entressafra, quando o etanol dos EUA consegue competir. O rápido crescimento da indústria brasileira de etanol de milho também reduziu a necessidade de suprimentos estrangeiros.

Produtores locais temem que um fluxo de etanol dos EUA possa agravar um cenário já desafiador para as usinas, que devem enfrentar margens mais apertadas na próxima safra, devido a fatores como a recuperação na produção global de açúcar, uma provável mudança das usinas brasileiras em direção ao etanol e a queda dos preços da gasolina, que corroem a competitividade do etanol. Além disso, a produção brasileira de etanol de milho deve saltar 20% no próximo ano.

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Especialistas estimam que a oferta de etanol no Brasil deve aumentar de 3 a 4 bilhões de litros na próxima safra, à medida que a produtividade da cana se recupera e as usinas aumentam a participação do etanol em seu mix de produção, o que deve pressionar os preços para baixo, diminuindo as margens de importação.

O potencial de mercado para o etanol dos EUA é estimado em até 10% da demanda total brasileira. Distribuidores de combustível brasileiros devem contratar 90% do etanol anidro que planejam vender com um ano de antecedência, sob uma regra do regulador de energia ANP, reservando efetivamente a maior parte do mercado para fornecedores locais.

Produtores americanos, que fabricam principalmente etanol anidro, também enfrentam limites no segmento do mercado brasileiro que podem atender, pois os carros flex brasileiros são abastecidos diretamente com etanol hidratado, enquanto o anidro é misturado à gasolina e representa uma parcela menor do mercado.

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