Brasil se posiciona como peça chave na disputa entre eua e china
Em meio a um cenário global marcado por tensões comerciais e disputas hegemônicas, o Brasil emerge como um ator estratégico, impulsionado por sua capacidade de fornecer alimentos à China. Embora Estados Unidos e China tenham sinalizado uma trégua em sua guerra comercial, com promessas de redução de tarifas e expansão do comércio agrícola, analistas apontam que essa pausa representa apenas uma gestão temporária de uma rivalidade muito mais profunda.
A disputa entre as duas maiores economias do mundo transcende as tarifas e se estende ao controle do futuro tecnológico, abrangendo inteligência artificial, semicondutores, rotas marítimas e cadeias de abastecimento. Ambos os países almejam a liderança global, impulsionados por modelos políticos e econômicos distintos.
Enquanto os Estados Unidos buscam um retorno industrial através de protecionismo e cortes de impostos, a China adota uma estratégia de longo prazo, investindo em tecnologia, energia limpa e infraestrutura global. Contudo, a China enfrenta uma vulnerabilidade: a dependência de importações de alimentos.
Com uma vasta população e terras agrícolas limitadas, a China depende do mercado externo para suprir suas necessidades de soja e milho, essenciais para sua indústria de ração e proteínas. O Brasil desponta como um fornecedor confiável e preparado para atender a essa demanda.
Dados recentes indicam que o Brasil já responde por uma parcela significativa das importações chinesas de soja, ultrapassando 65% em alguns períodos e chegando a 80% em determinados meses. Além disso, o país se consolidou como um dos principais fornecedores de carne bovina e de frango para a China, fortalecendo uma parceria estratégica resiliente.
Apesar de eventuais alternâncias nas compras chinesas, motivadas por considerações diplomáticas, o fluxo comercial tende a retornar ao Brasil, impulsionado pela competitividade da soja brasileira, pela ausência de tensões militares e pela postura geopolítica neutra do país.
Essa conjuntura posiciona o Brasil de forma única no cenário internacional. Em um mundo onde a disputa se concentra em tecnologia e armamentos, a capacidade de garantir o abastecimento alimentar confere ao país um poder estratégico significativo. No entanto, para consolidar essa posição, o Brasil precisa fortalecer sua credibilidade sanitária, aprimorar sua eficiência logística e garantir a estabilidade interna.
A vigilância contra pragas e doenças, a manutenção de acordos fitossanitários e a expansão da infraestrutura de portos, ferrovias e armazenagem são cruciais para evitar perdas e garantir a competitividade do país. Além disso, é fundamental agregar valor aos produtos brasileiros, transformando grãos em proteína animal, biocombustíveis e derivados, impulsionando a criação de empregos e a geração de renda.
Apesar da trégua temporária entre EUA e China, a disputa por hegemonia global persistirá. Nesse contexto, o Brasil tem a oportunidade de se consolidar como o principal fornecedor de alimentos para a China, capitalizando sua dimensão continental e sua capacidade de produção contínua. Ao preservar sua estabilidade institucional e sua imagem de produtor confiável, o Brasil poderá transformar essa dependência em um ativo estratégico de grande relevância geopolítica.



