Pix parcelado: banco central abandona regulamentação e gera preocupação

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O Banco Central (BC) surpreendeu o mercado financeiro ao anunciar a desistência da criação de regras específicas para o Pix Parcelado. A decisão, comunicada durante o Fórum Pix em Brasília, põe fim a meses de expectativa e adiamentos, reacendendo o debate sobre os riscos de superendividamento e a necessidade de maior transparência na oferta de crédito atrelada ao sistema de pagamentos instantâneos.

A autarquia também proibiu o uso da marca “Pix Parcelado” por instituições financeiras em seus produtos e campanhas. No entanto, a permissão para a utilização de termos similares, como “Pix no crédito” ou “Parcele no Pix”, gerou críticas de entidades de defesa do consumidor, que alertam para a persistência do risco de confusão entre pagamento e empréstimo.

A ausência de regulamentação uniformizada significa que o Pix Parcelado continuará a ser oferecido sem regras padronizadas, com cada instituição financeira definindo livremente suas próprias taxas de juros, prazos de pagamento, modalidades de cobrança e regras de atraso. Essa falta de padronização dificulta a comparação entre as diferentes ofertas e aumenta o risco de contratações sem plena compreensão dos custos envolvidos.

O Pix Parcelado funciona como um empréstimo pessoal atrelado ao meio de pagamento, onde o cliente realiza um pagamento instantâneo, enquanto o recebedor recebe o valor total imediatamente. Em contrapartida, o pagador assume um compromisso de crédito, arcando com juros e outras condições contratuais estabelecidas pelo banco.

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Especialistas alertam que as taxas de juros do Pix Parcelado, em média de 5% ao mês, e o Custo Efetivo Total (CET), que pode chegar a 8% mensais, são superiores aos de outras modalidades de crédito pessoal. Além disso, o custo total nem sempre é exibido de forma clara na etapa inicial da contratação, com detalhes como IOF, taxas adicionais e regras de inadimplência aparecendo somente ao final da operação.

O Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) classificou a decisão do Banco Central como “inaceitável”, argumentando que a falta de regulamentação estimula a desordem regulatória e favorece abusos, ampliando o risco de superendividamento. O Idec critica a delegação da responsabilidade pela padronização ao mercado, ignorando os riscos já conhecidos no setor de crédito e a potencial indução a decisões precipitadas devido à associação com o Pix, sistema de pagamento amplamente confiável.

A decisão ocorre em um contexto de crescente superendividamento no Brasil, onde milhões de consumidores já comprometem grande parte de sua renda com dívidas. A preocupação é que transformar o Pix em um meio de acesso ao crédito sem regras claras agrave ainda mais essa vulnerabilidade.

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Apesar da proibição do uso da marca “Pix Parcelado”, ainda não há clareza sobre os mecanismos de fiscalização que serão adotados para coibir práticas similares. A falta de fiscalização objetiva pode abrir espaço para diferenças extremas entre as ofertas dos bancos, termos e condições pouco transparentes, dificuldade na comparação de ofertas e aumento de contratações inadequadas.

A expectativa era que o Banco Central estabelecesse critérios obrigatórios para o Pix Parcelado, como a exibição clara do CET antes da contratação, informações obrigatórias sobre juros, IOF e encargos, regras padronizadas de cobrança e inadimplência, transparência na forma de apresentação do produto e separação visual entre pagamento e crédito.

Diante da ausência de regulamentação, a tendência é que a oferta de produtos semelhantes ao Pix Parcelado continue crescendo, com os bancos se concentrando em termos alternativos para oferecer crédito com funcionamento idêntico. Isso pode levar a uma maior dificuldade para o consumidor identificar que está contratando crédito, maior exposição a juros elevados, riscos de inadimplência e endividamento e ausência de parâmetros mínimos para avaliação do produto.

O debate sobre a regulamentação do Pix Parcelado deve continuar no setor financeiro, com entidades de defesa do consumidor, fintechs, instituições financeiras e especialistas em crédito pressionando por maior clareza e transparência.

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