Quando o juro seca o campo

O planejamento da comercialização, crucial no início da safra anterior, rendeu bons frutos, impulsionado por um câmbio favorável. Contudo, paira a incerteza sobre a repetição desse cenário. Uma guerra comercial reacendida e a proximidade de novas eleições trazem desafios adicionais, mas o custo elevado do capital emerge como o fator determinante, impactando diretamente as decisões cotidianas.
O aumento das taxas de juros, talvez a mudança de preço mais significativa de um ano para o outro, torna o acesso ao dinheiro oneroso e limitado. Embora o impacto das variáveis macroeconômicas se estenda a toda a economia, a percepção de risco no crédito rural se intensificou, comprimindo ainda mais as margens de lucro de quem depende de alavancagem.
Em tempos de dificuldades financeiras, a busca por economia e prazos estendidos se intensifica. A questão fundamental, no entanto, reside na viabilidade estrutural dos negócios. A combinação de incertezas desfavoráveis exige uma análise aprofundada, levando muitos a considerarem a necessidade de desinvestimento estratégico.
A dinâmica entre oferta e demanda se redefine com o aumento do custo do capital, que impacta a produção, a comercialização e o investimento. O crédito rural, tradicionalmente um amortecedor de crises, se tornou um gargalo, com bancos e fundos revisando critérios de garantia e ampliando os spreads.
A disparidade entre o tempo de produção da terra e a velocidade da cobrança do capital exige reinvenção por parte dos produtores, que precisam alongar dívidas, reestruturar seus fluxos de caixa ou buscar instrumentos de proteção contra a volatilidade cambial e das taxas de juros.
Em um cenário de crédito restritivo, o acesso ao capital se torna um reflexo da governança financeira e da gestão de riscos. Não basta apenas possuir ativos ou alta produtividade; é fundamental ter previsibilidade. Empresas e produtores que priorizam o fluxo de caixa demonstram maior resiliência em tempos de crise. A eficiência operacional, antes um diferencial de rentabilidade, se torna agora um fator de sobrevivência.
A gestão de riscos vai além da prevenção de perdas, abrangendo a manutenção da capacidade de reação rápida diante das mudanças do mercado. As taxas de juros são cíclicas, e quem preservar liquidez e reputação financeira estará em vantagem quando o mercado voltar a precificar o risco de forma mais racional.
Enquanto o plantio segue seu curso, acompanhado de perto as tarifas de importação e as previsões climáticas, os cortes de juros pelo Federal Reserve contrastam com os níveis historicamente elevados praticados no Brasil. Apesar das discrepâncias entre as taxas locais e globais, espera-se uma convergência futura. Até lá, o mercado navega em um cenário de crédito escasso e juros altos.
Ações imediatas incluem priorizar a liquidez, reduzir a imobilização de ativos não essenciais, acelerar o recebimento de valores, vender ativos não produtivos e manter um caixa estratégico. O fluxo de caixa deve servir como guia, sincronizando prazos de pagamento e recebimento, e revisando acordos de troca com base no fluxo de caixa, não na intuição. A reputação de crédito, a transparência, a governança e o cumprimento de acordos são cruciais para garantir acesso ao crédito quando as condições melhorarem.
A superação desse período desafiador passa pela priorização da liquidez em vez da expansão descontrolada, consolidando a resiliência para aproveitar as oportunidades que surgirão com a retomada do ciclo econômico.


