Remédios para emagrecer: como o consumo está sendo transformado?

Inovações farmacêuticas que transformam a saúde já são realidade há décadas, mas um novo fenômeno chama a atenção: medicamentos para perda de peso, como Ozempic e Wegovy, parecem estar remodelando a economia do consumo.
Originalmente desenvolvidos para tratar diabetes, esses fármacos têm sido amplamente prescritos para emagrecimento, influenciando não apenas a saúde física e o tamanho corporal, mas também o comportamento coletivo. A forma como as pessoas comem, compram, se movimentam, se percebem e tomam decisões está em transformação, com implicações relevantes para o mundo dos negócios.
Os remédios para emagrecer podem estar catalisando uma transformação comportamental e econômica comparável a grandes avanços tecnológicos. O interesse dos consumidores pelo Ozempic, por exemplo, cresceu mais rápido do que as buscas por produtos tecnológicos populares como o iPhone. Contudo, diferentemente das inovações digitais, esta mudança é fisiológica, partindo da biologia e se espalhando para diversos setores, borrando as fronteiras entre alimentação, bem-estar, beleza, varejo e turismo.
Uma análise recente demonstra que usuários desses medicamentos comem menos, levando a uma redução no consumo geral. Em mais de 11 mil lares, o gasto com supermercados diminuiu significativamente quando o usuário era o principal responsável pelas compras de alimentos. Enquanto isso, as despesas totais dos lares caíram em menor proporção, indicando que parte da economia foi redirecionada para outras áreas.
Os efeitos desses medicamentos não se limitam à indústria alimentícia, estendendo-se a setores adjacentes. No vestuário, o gasto tende a aumentar após o início do tratamento, refletindo tanto a necessidade de renovação do guarda-roupa quanto uma renovada confiança e o desejo de alinhar a aparência com o bem-estar. Há também um crescimento nas inscrições em academias e na compra de equipamentos de ginástica, demonstrando um aumento na motivação para se exercitar e um foco maior na saúde.
Os hábitos alimentares também evoluem: o gasto com fast food e lanches diminui, enquanto o consumo em restaurantes com serviço completo aumenta. As pessoas estão comendo menos, mas investindo mais em refeições sociais e experiências intencionais. Há também um aumento no turismo voltado ao bem-estar e em retiros fitness.
Analistas apontam que um percentual considerável da população usa atualmente algum medicamento para perda de peso, e muitos mais considerariam fazê-lo se fatores como custo e cobertura de seguro fossem facilitados. Além disso, esses medicamentos estão sendo cada vez mais prescritos para outras condições de saúde, como fertilidade e doenças cardíacas, o que pode acelerar sua adoção.
O alcance total dos efeitos ainda é incerto, mas os impactos podem se estender a setores como beleza, fitness, hospitalidade e seguros de vida. Empresas de bebidas alcoólicas e entretenimento também podem ser afetadas, à medida que rituais sociais que antes eram moldados pela comida e pela bebida se transformam.
Empresas que analisarem os novos padrões de busca, compra e consumo estarão em vantagem, devendo planejar cenários, identificar quais hábitos do consumidor estão vulneráveis e quais áreas do negócio estão menos preparadas para as mudanças na demanda.



