Rio sob ataque: violência e a lógica da austeridade
O Rio de Janeiro reviveu cenas de horror com helicópteros sobrevoando favelas, tiroteios intensos e moradores em pânico. Após a operação, o governador Cláudio Castro declarou o cumprimento da missão e destacou a atuação da inteligência, em um discurso que sinaliza o início de sua campanha para 2026.
A relação entre a retração do estado social e a imposição do estado penal, conforme apontado pelo sociólogo Loïc Wacquant, se manifesta de forma clara no Rio. A austeridade implementada desmantela serviços públicos essenciais, como escolas, e precariza a vida da população, enquanto o aparato punitivo assume o controle, disciplinando corpos marginalizados. A violência se torna ferramenta de regulação, evidenciando que a política econômica e a repressão são partes de um mesmo projeto.
O Atlas da Violência 2025, produzido pelo IPEA, revela um aumento de 13,6% nos homicídios no Rio, em contraste com a leve queda observada em outros estados. As vítimas são, em sua maioria, jovens negros sem oportunidades de emprego e educação. A ausência de políticas públicas abre espaço para a justificativa punitiva, que encontra eco em parte da população que vê na repressão a solução para a criminalidade.
A juventude é o principal alvo da violência. As estatísticas apontam para um aumento nas mortes de pessoas entre 15 e 29 anos, com um crescimento ainda mais alarmante entre adolescentes. O aumento de 50% nas mortes de crianças entre 5 e 14 anos demonstra que não se trata de meros “efeitos colaterais”, mas de uma estratégia política. A execução se apresenta como resposta ao vazio social criado pelas políticas de austeridade.
A pesquisadora Alba Zaluar destaca que a violência no Rio é um ecossistema complexo, alimentado pela circulação de armas, pela cumplicidade institucional e pelo abandono social. O que antes era economia ilegal se traduziu em gestão pública, com o estado atuando como parceiro e restaurador de uma “ordem” que sacrifica vidas. As operações policiais se tornaram mensagens, as mortes, métricas, e o aparato repressivo se consolida.
A ADPF 635 demonstrou que a limitação de procedimentos letais pode gerar resultados positivos, com uma queda drástica nas mortes por intervenção policial, de 1.814 em 2019 para 699 em 2024, e uma consequente diminuição nos homicídios dolosos e roubos. No entanto, o governo interpretou essa contenção como uma perda simbólica e reverteu as medidas, reafirmando a estética do choque, liberando helicópteros, permitindo operações próximas a escolas e normalizando o uso de armamento pesado em áreas urbanas.
Esse movimento representa a construção deliberada do aparato repressivo, um projeto com fins eleitorais, visto que parte da população o legitima como a única solução possível. A violência se torna um espetáculo para uma audiência empobrecida e submetida à lógica neoliberal da eficiência, que encontra no massacre a ilusão de “ordem”. O discurso simplista de que “bandido bom é bandido morto” convence por prometer soluções fáceis onde faltam políticas públicas complexas.
A austeridade transformou a privação econômica em argumento moral. Ao eliminar o futuro, criar inimigos e restringir alternativas, o aparelho punitivo entra em ação. Quem perde tudo é visto como ameaça, punido com a morte e exposto como exemplo. O estado, dessa forma, não apenas permite a violência, mas a modela, a racionaliza e a utiliza politicamente.
Há uma conexão entre o apoio às empresas de tecnologia financeira e a tolerância à lavagem de dinheiro das grandes organizações criminosas, o armamento da polícia e a morte de jovens envolvidos no tráfico. O jovem que abandona a escola para trabalhar como “vapor” é morto pela mesma máquina que financia seus chefes. O capital se legitima no topo, enquanto a violência fecha a conta na base.
Ainda assim, há resistência. Mães que se recusam a se calar, moradores que filmam e denunciam, defensores públicos que lutam na justiça, jornalistas que insistem em expor o que se tenta esconder. Esses atos representam uma barreira contra a normalização do extermínio. Diante da organização do aparato repressivo, cada denúncia impede um pouco da liquidação moral que o poder almeja.
O massacre recente serve como demonstração de poder e aviso, revelando o desejo do capital, expresso pela extrema direita, de que a ordem seja restabelecida pelo medo, a pobreza seja punida com a morte, o ódio gere votos e a desigualdade social se mantenha. Reconhecer essa realidade é o primeiro passo para desmantelar o sistema que transforma a política em massacre.



